Tempos (ainda) difíceis

Tempos (ainda) difíceis


Por Rosângela Chaves*
O diretor italiano Mario Monicelli ganhou fama por suas irreverentes comédias, como O Incrível Exército de Brancaleone e Parente é Serpente , mas ele também é autor de um belíssimo drama que se equipara aos grandes clássicos do cinema político de seu país das décadas de 60 e 70, a exemplo de A Classe Operária Vai ao Paraíso , de Elio Petri. Falo de Os Companheiros , sobre um grupo de operários que tenta organizar um movimento grevista.
O filme é ambientado no final do século 19 e as condições dos operários em cena lembram o cenário aterrador descrito por Charles Dickens em Tempos Difíceis , a sua obra-prima sobre a classe trabalhadora inglesa durante a Revolução Industrial. Salários miseráveis, jornadas de trabalho extenuantes que se estendem a 14 horas diárias, ausência de qualquer proteção social no caso de acidentes na fábrica, exploração da mão-de-obra infantil – eis o retrato do que se poderia chamar os escravos do capitalismo. Em meio a tantas desgraças, uma sequência do filme é comovente: quando, no intervalo de 30 minutos para o almoço, um empregado corre até o imenso portão da indústria para encontrar a mulher com o filho no colo, já que esta é a única hora do dia em que ele tem a chance de ver a criança acordada.
Essa cena me veio à mente quando, no final do mês de passado, em São Paulo, já no caminho de volta para o aeroporto, conversava com o motorista de táxi. Este, falando das agruras do dia-a-dia (aliás, ser taxista em São Paulo deve ser mesmo uma das piores profissões do mundo), dizia que o que mais lamentava era o fato de ter pouquíssimo contato com o filho pequeno, porque saía de casa muito cedo e só voltava tarde da noite, horários em que a criança estava dormindo. Pai e filho sob o mesmo teto, mas estranhos um ao outro.
Pensei, então, o que deveria ser óbvio, mas que normalmente nos esquecemos por ainda mantermos nossa fé ingênua e positivista num progresso permanente. De fato, a classe trabalhadora, se nos atermos à realidade brasileira, alcançou muitas conquistas ao longo do último século, mas é igualmente fato que ainda hoje convivemos com situações que parecem ter sido extraídas do romance de Dickens ou do filme de Monicelli. As jornadas formais de trabalho não são mais de 14 horas, mas, se for somado o tempo que muitos trabalhadores gastam para se locomover, quase chegam a isso; o trabalho infantil é proibido, o que não impede que a mão-de-obra de crianças continue sendo explorada das mais diversas e degradantes formas; sem falar que a tecnologia, antes uma promessa para nos libertar, ao menos em parte, da lida diária, está fazendo, ao contrário, com que trabalhemos cada vez mais.
Curioso é que, pelo menos em um aspecto, o operário de Os Companheiros leva vantagem em relação ao motorista de táxi de São Paulo. O primeiro ainda tinha a chance de brincar com o filho, por alguns minutinhos, na hora do almoço. O taxista, coitado, nem isso…

*Rosângela Chaves é jornalista e editora de Magazine do jornal O Popular. E-mail: rosangela.chaves@ojc.com.br

Fonte: Jornal O Popular