Psicologia da inveja

Por Leonardo Teixeira*

Dizem que a inveja representa indignação e cobiça aos bens, atributos, status, habilidades e sucessos alheios. Irmã “murrinha” da cobiça e do ódio. Um tanto quanto sádica por sentir prazer na adversidade e na aflição dos outros. “A inveja mata”.
Não é certo dizer que os sete pecados capitais (inveja, ira, gula, luxúria, preguiça, orgulho e ganância – alguns falam em soberba e avareza ao invés das últimas) estão nas sagradas escrituras. Posto que nelas há menção de sete outros pecados: olhos altivos, língua mentirosa, mãos que derramam sangue inocente, coração que maquina pensamentos perversos, pés que se apressam a correr para o mal, testemunha falsa que profere mentiras, e semear contendas entre irmãos.
Na ganância se cobiça a posse material (o ter); na inveja se deseja a essência do ser. Muitas vezes estar no lugar do outro ser (humano). Os gananciosos não dispensam os bens e nem novas possibilidades de angariar mais, custe o que custar. A força motriz que os levam a agir é absolutamente cega e inconsequente. A vontade dos gananciosos parece não ter fim, pois geralmente são movidos pelo voraz apetite que tenta inutilmente preencher o vazio existencial do buraco negro de seus interiores.
A inveja é sorrateira e perigosa. Pois geralmente transfigura-se em falso carisma, num afeto forjado por não valorizar a qualidade alheia. É um sentimento sórdido e camuflado. Os invejosos costumam ter uma personalidade de lacunas, vazia de autenticidade, e aparentam um falso vislumbre admirado pela outra pessoa. Mas os invejosos, ao desejarem a ruína dos seus adorados, acabam maculando e difamando a pessoa, perdendo a oportunidade de se tornarem grandes amigos ou aprendizes.
Na verdade, a autoestima do invejoso é péssima, por nunca estar satisfeito com quem realmente é, desejando ser exatamente a outra pessoa, alvo de sua cobiça. E como não pode viver bem, o invejoso arruína a vida alheia. O resultado disso tudo é a vergonha da própria insatisfação, que resulta em tristeza ou depressão. O invejoso parece acreditar ser vítima do mundo e do invejado. É distorcendo a verdade que ele sufoca a sua essência.
Nem sempre há grandes distâncias ou talentos entre o invejoso e o invejado. Pois o tempo, a dedicação e o trabalho podem transformar qualquer pessoa. No entanto, ao invejoso nato falta certa convicção própria, força de vontade, aliados a uma frágil estrutura psíquica e um problema talvez de berço (criação) ou de cultura.
Estudiosos da mente humana dizem que a dificuldade maior da inveja é o fato de ela ser irmã de outro pecado: o orgulho. O orgulho inibe a vontade de enfrentar os problemas e solucioná-los de forma satisfatória. Desta forma, o buraco negro fica ainda maior. Com a humildade se busca o que não se sabe e se enfrenta qualquer barreira. Ela é a virtude motriz para desfazer os sete pecados.
O invejoso carrega um coração ganancioso por outras essências, dilapidado por uma ânsia de poder, de viver em outro lugar como outra pessoa, eliminando o invejado dos seus caminhos e sucessos, mentindo sobre seus atributos, apesar de reconhecê-los vez ou outra.
Contudo, assim como os outros pecados, todos podem ser perdoados. A começar pelo arrependimento. Ele é o primeiro passo para mudar os caminhos. Buscando a humildade se combate a lacuna da ânsia. A fé, a misericórdia e a graça são outras forças transformadoras de seres, pois os novos caminhos necessitam de corações abertos e contritos. Afinal, não há no mundo ninguém, durante toda a vida, que não seja isento de pecados. Até a próxima página!

*Leonardo Teixeira é escritor. Escreve às quintas-feiras neste espaço ([email protected])

Fonte: Jornal Diário da Manhã (edição de 22/07/2010)

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